sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Kilimanjaro – Dia 7 – 18:32

A hora H aproxima-se, a ansiedade cresce e tudo fervilha cá por dentro. Até lá o descanso é muito importante, mas não sei se o tenho. O jantar foi curto, o frio aperta, as ideias dissipam-se e só o pico Uhuru está presente em mim. Em breve...o dia mais longo.

Kilimanjaro – Dia 7 – 13:27

A noite de ontem foi muito frustrante. Quer eu, quer o Chico não conseguimos pregar olho devido a termos os pés gelados. Parece um mal de família, o qual, por muito confortável que esteja o corpo, se os pés estão frios, não há sono que chegue. Pode-se dizer que a noite foi a mais fria que apanhamos.
Acordamos, ou melhor, levantamo-nos pelas 6:20 (umas agradáveis 4:20 na pátria) e apesar do cansaço, arrumamos tudo e deixamos “Mawenzi Tam” para seguirmos para “Kibo Hut”, o último porto antes da derradeira subida. Ao longo de 9 km, passamos dos 4315mt para os 4703mt. A caminhada foi a um bom ritmo e em 3 horas percorremos a desolada planície. Os últimos 2km foram um desafio pois eram sempre a subir, algo que a esta altitude é um grande desafio.
Pelo caminho ainda passamos pelos destroços de uma avioneta, a qual se despenhou há 3 anos. O nevoeiro foi o inimigo e só o piloto saiu para contar a história.
Chegados a “Kibo Hut”, a montanha Kibo (que é o nome da montanha mais alta do parque Kilimanjaro) intimida qualquer um. Deste ponto, e nuns escassos 6km, sobem-se cerca de 1200mt.
Efectuamos o registo que permite à gestão do parque ter alguma noção do progresso dos visitantes e, segundo indicação do nosso guia Bruce, parece que nos dão um diploma no final.
Já na tenda, a nossa amiga Joanna do Canadá (que está a fazer o mesmo percurso mas em 6 dias), veio à nossa procura e falou-nos da sua subida. Uma coisa sublinhou, o frio! “Levem toda a roupa que tiverem”, disse. Também nos disse que o trajecto que fizemos hoje (em 3h), demorou-lhe 4h, o que é um bom presságio para nós. Para compensar, começou a cair algum granizo e, continuando assim, a nossa saída pela meia-noite será dura.
Resta agora descansar para poder enfrentar com mais força a noite mais longa.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Kilimanjaro – Dia 6 – 3:41

Hoje acordei de uma noite algo longa. Mesmo assim, menos longa que a de ontem, e também com uma grande benesse, as dores de cabeça passaram. O Chico ainda tem uma impressão, mas chegamos à coclusão que será dos óculos de sol dele, que são bem mais claros que os meus.
Outra coisa que me saltou à vista é a muito frequente necessidade de aliviar a bexiga, uma consequência do trabalho extraordinário realizado pelos rins, mas principalmente pelo fígado. O qual, por estes dias, tem produzido glóbulos vermelhos a um ritmo frenético. Apesar desse trabalho extra, nota-se ainda a minha lacuna nesse campo, ao ter as minhas pulsações entre as 80 e 90 por minuto, ao invés das 50/60 como é hábito. Perante isto, rapidamente percebo a dificuldade em exercitar. Se normalmente partia dos 60 batimentos por minuto para os 120 (um belo número para servir de limite), agora parto logo dos 90. Vendo este pequeno intervalo é fácil de perceber o comentário dos guias: “poli, poli” (devagar, devagar).
O dia de hoje tem como objectivo habituarmo-nos ao pouco oxigénio que estas bandas têm, afinal já estamos mais alto que certos aviões (vá, dos pequenos) voam. E foi com essa ideia que partimos para uma voltinha de 4 horas. Saímos pelas 10h para chegar a umas matemáticas 14:01. O passeio contou com o George (que afinal é Jogi, foneticamente) e com o Dila, o nosso ajudante de cozinha, que parece que está a aprender para ser guia.
Com a chegada ao acampamento, agora mais deserto dado que as outras expedições tinham menos um dia que a nossa, tivemos um belo almoço. Mais uma vez, os ingleses que estão connosco só se queixam da comida, mas para mim é certamente muito melhor do que esperava.
Segue-se uma sesta, porque o dia da subida está a chegar, e esse sim, será longo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Kilimanjaro – Dia 5 – 17:30

Um passeio curto para nos elevarmos até aos 4500mt sublinha a regra que os guias nos dizem “Poli, poli” (devagar, devagar). Com o oxigénio a ser cada vez mais reduzido, o coração começa logo a entrar em ritmo acelerado para fazer chegar o precioso gás às carenciadas células. Há, no entanto, algo curioso, o descer. Depois de chegarmos ao ponto mais alto do passeio, voltar para os 4315mt parece a coisa mais simples que se tem de fazer. É verdade que a diferença é diminuta, mas a cabeça diz “vai, que assim estás bem!”.
Amanhã a climatização será mais desgastante. A ideia é subir até aos 4600mt e voltar, sendo que também será num passeio de maior distância. Assim, não descorando a leve dor de cabeça, só me tenho de lembrar de uma coisa “poli, poli”.

Kilimanjaro – Dia 5 – 15:26

Chegamos ao nosso destino pelas 11:30. Acabamos por fazer um bom tempo apesar da elevação que tivemos de percorrer. Cada vez mais um passo é um desafio. As pernas parecem que só se alimentam de ácido lácteo e uma inspiração não nos traz o ar que se espera.
“Mawenzi Tam” é um pequeno planalto com um também pequeno lago. Inundado por um  nevoeiro cerrado que não me diz se aquece ou arrefece o ambiente. A estes singelos 4315mt, a temperatura, se o Sol não mostrar a cara, é baixa, nem quero pensar como será de noite. O que vale é que ainda estamos a ser poupados na roupa, isto é, estamos a forçar usar pouca roupa. O que me leva a fazer isto é o dia da última subida. Nessa altura o desafio será colossal. A escalada é de mais de 1100mt, a subida será iniciada à meia-noite (o que para quem não terá reparado, implica andar durante a fria noite). Além disso, será um dia de 12h a andar, o que nunca é fácil.
Agora seguem-se mais umas curtas saídas para nos aclimatarmos com o pouco ar que temos.

Kilimanjaro – Dia 5 – 10:20

Hoje está a ser uma boa subida. Estes mais de 800mt, de subida de cota, até à hora de almoço fazem-se notar na paisagem. Para trás deixamos a floresta e agora só restam pequenos arbustos e muitas rochas. Uma paisagem desoladora que, se não fosse a magnífica vista sobre a savana, seria muito mais desinteressante.
Ainda nos faltam 1:30h para o nosso destino e consequente manjar.

Kilimanjaro – Dia 5 – 7:28

 A noite foi dura, o sono não aparecia e o meu corpo estava a uma temperatura estranha, com as pernas quentes, o tronco a uma boa temperatura mas acho que a cabeça fria. Mesmo assim o que me parece o maior problema foi a altitude. Felizmente já não há dor de cabeça e hoje temos uma caminhada curta de 3 horas. Será só de manhã e ficaremos em “Mawenzi Tam”, a 4315 metros. É uma subida que parte dos 3600mt em que são 6km para subir 815mt. De qualquer modo, com o cansaço que tenho, a dificuldade será acrescida.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Kilimanjaro - Dia 4 - 17:21

É incrível a terra neste país. É tão fina que mete-se em todo o lado. Se me assoar fico com um lenço preto. O simples facto de ser tão fina é que, ao limpar de um lado, parece que sujamos noutro. O mais correcto para descrever a situação é como um verdadeiro esforço inglório e infrutífero.
De qualquer modo, a simpatia dos nativos é díficil de quantificar. No caso do nosso guia secundário, o George, há sempre um grande sorriso com ele. Mais ainda, quando disse que queria aprender algumas palavras de Swahili, parece que ainda ganhou mais motivos para sorrir. Agora, sempre que pode, atira-me uma palavra nova, como se fosse um desafio que eu tivesse para superar.
Neste momento, depois do nosso lanche de pipocas e chá, vimos uns corvos a tentarem roubar o jantar de peixe. Valeu-nos a intervenção do George e a passividade das aves. Estes corvos são curiosos, pois têm o colarinho branco e ostentam uma envergadura bem superior ao que estamos habituados.
Por esta altura começo é a sentir alguma reacção à altitude. Nomeadamente com uma dor de cabeça, felizmente não é castrativa e uma sesta deverá ajudar.

Kilimanjaro - Dia 4 - 15:20

Acabamos a caminhada por hoje. Os trilhos eram mais técnicos, o que para além dos altos e baixos, ajudou ao cansaço. Agora, montam as tendas enquanto a névoa torna a encosta mais tenebrosa e pouco acolhedora.
Quanto ao equipamento de hoje, fiz uma má escolha. As meias foram quentes demais para o dia que tive, o que pode resultar em algumas bolhas. No entanto ainda não vi como estão os pés, que por este andar, caminham para tocos.
Agora a tenda é o meu destino, assim como um merecido descanso.

Kilimanjaro - Dia 4 - 12:30

As refeições mesmo neste local recôndito de África são muito bem confeccionadas. A qualidade também parece uma preocupação. Ainda não houve qualquer problema com as entranhas, o que não deixa de ser um ponto muito positivo.
Apesar destas mordomias todas, uma coisa é certa, há uma calma na montanha que é muito difícil de descrever. Parece que estamos isolados do mundo e ao mesmo tempo, por estarmos tão alto, parece que tudo está tão perto.
Vou continuar a saborear esta acalmia com o respeito que a montanha merece.

Kilimanjaro - Dia 4 - 11:42

Chegamos agora à “Rongai 2nd Cave”. A caminhada foi a um bom ritmo, mais rápido que ontem. Hoje deu para suar e a esta altitude (3450 metros) ainda não há frio ou problemas de altitude.
Nesta clareira já conseguimos ver a imponência da montanha. Por outro lado a planície africana já está escondida pelas muitas nuvens.
Posso dizer que há mais luxo do que estava à espera. Como é o caso de uma sanita, almoços quentes entre outros pontos. É algo que tira dificuldade ao desafio e até algum glamour.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Kilimanjaro - Dia 3 - 21:45

Posso dizer que nesta parte do mundo anoitece e com bastante rapidez. A esta hora não há brilho que nos ajude. A bruma que envolve o encampamento é tal que só se ouvem os grilos e demais alpinistas.
Por esta hora já jantamos, sendo que o jantar foi uma bela surpresa. Tivemos direito a uma refeição excelente. Certo que a sopa de pepino tinha pimenta a mais, mas tudo o resto era bem bom. Definitivamente mais do que esperava.
Como o Chico salientou, eles reforçam alguma segregação, na medida em que indicam-nos para ficar nas tendas. Algo que os ingleses que sobem conosco apreciam, mas já os tugas perferiam de outro modo.
Durante o dia tivemos duas canadianas a subir conosco. Seguem o mesmo trajecto, mas em 6 dias (ao invés de nós que fazemos a ascenção em 7 dias). Uma delas é bem conversadora, mas a minha memória para nomes fez com que isso das denominações sociais se desvanecesse, mesmo assim, saliento a boa disposição e simpatia dela. Pode-se dizer que está a anos-luz dos dois ingleses que nos sairam na rifa. Infelizmente parece que não vamos mais caminhar com elas.
Já no que toca às caminhadas, ficamos abaixo do esperado, em "Simba Cap", que é a 600 metros (de elevação) de cota de "Rongai 2nd Cave". Por isso o dia de amanhã será duro. Mesmo assim, e até lá, conto com uma noite que espero bem passada, já que, do dia para a noite, a diferença térmica é enorme.

Kilimanjaro - Dia 3 - 16:13

Chegamos ao acampamento faz 20 minutos. A caminhada foi lenta, não pela dificuldade da mesma, mas pela velocidade. O nosso guia de serviço, o George, veio muito devagar. O motivo era o acampamento não estar pronto.
Agora esperamos por um lanche que aqueça o corpo e a alma. Por esta altura temos muita vegetação e a pouca inclinação ainda não deixam ver a montanha. A altitude ainda não se fez sentir e por isso pode-se dizer que estamos tranquilos. Segue-se um manjar com chá e pipocas, o qual tem muito bom aspecto.

Kilimanjaro - Dia 3 - 13:35

Depois de umas horas de viagem, circundamos a grande montanha. A porta de Rongai é a nordentes, sendo que Moshi, onde estavamos alojados é a sudoeste. Por esta altura estamos a certa de 2000 metros de altitude e temos 3 horas de viagem para as pernas. Conosco estão mais 2 inglêses, pai e filha. Ainda algo calados, sendo que é de esperar que seja pelo primeiro contacto e não por serem mudos.
Quanto ao ambiente, depois de sairmos de Moshi, com os seus 800.000 habitantes, temos sempre gente a sorrir e a acenar. Se as gentes da viagem o façam por talvez esperarem uma grojeta, muitos outros parecem ser verdadeiramente cândidos na sua expressão. Achei ainda piada a um grupo de 8 míudos que nos vieram logo interpolar no restaurante onde almoçamos. O Chico tinha uns caramelos que desapareceram rapidamente, perante o apetite dos petizes. Fico com curiosidade de passar uns tempos a ajudar numa missão para viver essa gratidão tão genuína, embora consciente que não fosse a primeira pessoa a fazê-lo.

Fico agora neste descanso, nesta calma, sem telemóveis, carros, confusão. Apenas nós e o desafio que enfrentamos. A planície e a música são tudo o que a alma precisa neste momento.
P.S.- É curioso as intermináveis plantações de bananas e também, no supé da montanha, de pinheiros mexicanos, os quais são plantados pela sua madeira que será utilizada para construção.

Kilimanjaro - Dia 3 - 8:56


Ontem o dia teve que fazer, o cansaço apertava e entre algum descanso deu para, de tarde, dormir um pouco até às 17h. Nessa altura seguimos para o breifing da viagem. Falaram de alguns cuidados a ter, como ir devagar, comer e beber, mesmo que o corpo não o peça.

Ontem ao jantar deu ainda para conhecer dois simpáticos inglêses, o Lee e a Gemma (que curiosamente são colegas de trabalho). Fizemo-nos companhia uns aos outros até à hora da dormida. Posso dizer que a Gemma, uma bela inglesa há-de sofrer do mesmo mal que as demais compatriotas, que chegam a uma certa idade e passa a ser acabadas (é um fenómeno que ainda não percebi naquele país).
Já o dia de hoje começou bem cedo, pelas 6:30 (GMT + 2) e houve tempo para preparar tudo. Parece que há 20 pessoas para tratar de cada um de nós. Quase que parece uma réstia do tempo do colonialismo. Na maneira que os locais são, se vestem e afins.
Dos vários turistas que estava no hotel, as divisões estão feitas por veículos. Nós, seguimos agora no jipe que nos foi indicado, por uma estrada de terra, a qual dificulta a escrita com o seu piso irregular.